Uma Thatcher para LGBT conhecer

MARGARET THATCHER FOI UMA DAS PERSONALIDADES DEFINIDORAS DO SÉCULO XX (FOTO: REX SHUTTERSTOCK/ MALCOLM GILSON)

 

“As crianças estão sendo ensinadas que elas têm o direito indelével de ser gay”.

– Margaret Thatcher

As palavras ditas por Thatcher em 87 na Conferência do Partido Conservador britânico levou a já conhecida como “dama de ferro” por sua postura econômica liberal e conservadora rígida a ser eternamente repudiada pela comunidade LGBT a nível mundial. Tamanha injúria da turma do arco-íris costuma contrastar com a admiração que integrantes homossexuais da própria ala conservadora  do partido britânico sentem pela baronesa tendo-a como um ícone. O empresário e aspirante à prefeitura de Londres Ivan Massow considera-a garota-propaganda dos homossexuais e, em declaração após a morte da Muito Honorável, disse que “sua atitude em relação à homossexualidade é muitas vezes incompreendida”. É entendível a discrepância de pensamentos contra e a favor quando nos dispomos a adentrar nas nuances que compõem o relacionamento da ex-chefe de Estado para com os gays.

AOS 24 ANOS, THATCHER TRABALHAVA COMO PESQUISADORA QUÍMICA (FOTO: CHRIS WARE/ STRINGER/ GETTY IMAGES)

Talvez o Reino Unido, nem o século XX como um todo não estivesse preparado para a quebra de paradigmas proposta por Margaret Hilda Roberts. Nascida na Inglaterra, em 1925, a filha de comerciantes Meggie (para os íntimos) foi criada em um lar ultrametodista, um lar em que a mulher incumbe-se apenas à devotar o patriarcado. Não se adequando a esses padrões, formou-se em química como bolsista na renomada Oxford e atuou como pesquisadora em sua área de formação.

Em 1951, ganha do empresário David Thatcher o sobrenome audível e um casal de gêmeos. Thatcher volta à vida universitária em 1953 para se especializar em Direito Tributário e, mais tarde, 1959, começava a traçar sua vida na política filiando-se ao Partido Conservador (CP) e ocupando timidamente seu lugar como autoridade legislativa na Câmara dos Comuns. A partir daí, seu pacto social para com uma nação economicamente destruída por sindicalistas começa a ser selado.

Anos depois, Margaret assume a Secretaria de Estado para Assuntos Sociais. A posse no início dos anos 70 como Ministra da Educação e Ciência foi posta de lado em 1975 para dar lugar a presidência de seu partido já cortando gastos numa economia vista com descrédito pelo mundo inteiro.

Poderíamos parar por aqui e termos um referencial de mulher que fugiu dos padrões daquela época hostil dando nó na cabeça de qualquer feminista cegamente engajada com a causa. Não.

Ambiciosa que é, 4 anos mais tarde, um cérebro feminino cheio de ideais ganha as eleições e pisa o mais alto degrau que a hierarquia parlamentar do Reino Unido permite, o cargo de premier britânico. Tamanha grandeza contrastou com uma resposta sua dada a um garoto durante uma entrevista televisiva em 87 quando ainda era secretária de governo: “eu acho que não vou ver uma mulher no poder”.

(FOTO: NORMAN PARKINSON/ CORBIS)

Penteado e look’s intimidadores faz-nos melhor assimilar o quanto Thatcher incomodou integrantes do próprio partido fundamentalista ao por abaixo o machismo arraigado, além de ter conquistado inimigos mortais como a Argentina do ditador Galtieri e União Soviética com sua obsessão de manutenção do poder estatal, mas o incômodo excitante que causou na esquerda de seu próprio país não tem preço. Esta com fortes centrais sindicais (equivalentes à CUT no Brasil) que se viram obrigadas a se adaptarem à lei do mais forte quando seus benefícios foram cortados junto a uma série de redução de gastos em vista de fazer progredir toda a Grã-Bretanha de seu estado de inércia e sua missão enquanto líder política foi concluída êxito. Nem o atentado a bomba, em 84, num hotel em Brighton com o intuito de aniquilar a estadista e ministros a fizeram parar. Pelo contrário, em 87 foi eleita novamente.

Diante de tantas benesses promovidas pela líder britânica, bastou aos inconformados já sem poder decisório sobre o país fazer uso do modelo de difamação que é marca registrada da esquerda e progressistas em qualquer lugar do mundo para tentar distorcer a imagem de alguém que conseguiu ser tão concisa em seus discursos e ações.

O enunciado que abre este post foi professado por Thatcher num evento de seu partido, em 1988, cuja pauta seria o veto à distribuição de materiais “educativos”, dentre eles o livro “Young, Gay and Proud!” (Jovem, Gay e Orgulhoso!) que tinha o intuito de promover à homossexualidade em escolas (algo parecido com Projeto Escola sem Homofobia no Brasil). Não foi possível. A Cláusula 28 inserida no Ato de Governo Local de 88 proibiu, dentre outras coisas, autoridades locais de promover nos estabelecimentos de ensino à aceitação de uma homonormatividade.

No Reino Unido, ser homossexual nos anos que precedem a segunda metade de anos sessenta seria ilegal. Em função da Lei de Delitos Sexuais, 67, tornou-se crime hediondo menores de 21 anos fazer qualquer referência a sua sexualidade, caso não fossem heterossexuais. A AIDS também colaborou na estigmatização desses indivíduos a partir de 82. Naquela época, até a maior parte dos centro-esquerda eram desfavoráveis às relações homossexuais. 67% simpatizantes do Labour Party (Partido Trabalhista) viam anormalidade em relacionamentos homoafetivos, segundo o Levantamento Britânico de Atitudes Sociais.

(FOTO: REX)

O que foi esquecido ou interessou-se em omitir é que Thatcher, em 1967, votou a favor da descriminalização da orientação homo e enquanto premier não interferiu no processo de legalização da homossexualidade na Escócia e Irlanda do Norte entre 1980-1982.

Gays próximos como o ex-secretário de correspondência do Partido Conservador e hoje colunista do The Times, Matthew Parris, disse em entrevista ao blogger Lain Dale que Margaret não tinha absolutamente nada contra os homossexuais. Norman Fowler, enquanto secretário de saúde e o braço direito da primeira-ministra, Willy Whitelaw, afirmaram em artigo da BBC de 2005 que não foram impedidos de trabalhar numa campanha de conscientização do vírus HIV na época. Ou seja, Thatcher, enquanto líder política, não se importava com a presença de gays em seu partido ou em qualquer outra instância da sociedade. Interessava-a apenas que estes cumprissem seus determinados papéis na construção de uma economia evolucionista executando um trabalho bem feito para o crescimento do Reino Unido.

São posturas como a da premier que, de fato, surtem efeitos positivos quando visamos a construtividade de uma sociedade: atribuir valores ao indivíduo em si e não à bandeiras, garante que o indivíduo seja o único elegível ao progresso, independente do sexo ou orientação sexual. Se pensarmos assim, logo não teremos tantos gays intitulando-se minorias bem como partidos fazendo uso delas caracterizando-as numa mera arma demagógica para obtenção e manutenção de poder.

Obrigado, Thatcher!

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