O paradoxo da tolerância nas redes sociais

Desde o início, quando me propus a escrever o livro Stimulacron, fui pautado pela maneira como as redes sociais têm lidado com a forma que estamos nos relacionando com os outros, sejam conhecidos ou desconhecidos. Muitas vezes, diante de uma série de questões, parece que o indivíduo que age na rede não é o mesmo indivíduo que lida no mundo real. A rede tem um papel que sobrepõe o “eu real” em detrimento do “eu virtual”. A rede, portanto, modula comportamentos, boa parte deste tendendo a ser agressivo.

Eu mesmo já lidei de diversas formas na rede, muitas delas que não correspondiam com valores que eu acredito. Mas lidei. E depois o estrago já estava feito.

Creio que a palavra chave que deve ser usada para resumir este texto seja “tolerância”. Karl Popper definiu no livro The Open Society and Its Enemies o que chamou de “Paradoxo da Tolerância”, dizendo: “Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes”. Resumidamente, o que estava sendo dito é: Como ser tolerante com alguém que está querendo te matar? Obviamente, quando Karl Popper escreveu sobre este tema, vivia um contexto da guerra. Hoje as guerras não estão sendo mais travadas em campos de batalha, mas sim no mundo digital, na Internet. E as redes sociais tem fator preponderante neste momento.

Todo mundo parece intolerante aos nossos olhos. E nos tornamos intolerantes a medida que os outros assim parecem para nós.

O problema é que devido ao fato das redes sociais modularem muitos aspectos de nossa vida, tendemos então a ser muito mais intolerantes, todos parecem inimigos a serem combatidos ou convertidos pelo nosso discurso. Muitas vezes travamos um debate com alguém que não esteja de fato querendo nos destruir, mas sim apenas debater. Eliminamos o fator “humano”, imperfeito, que trilha um caminho e que quer aprender como se estivéssemos lidando com uma espécie de “robô”.

Empatia é algo quase inexistente, não enxergamos “o outro”, também reflexo da mente do TODO.

Todo cuidado é pouco, claro, devemos estar sempre em alerta, mas a dúvida é: a pessoa está sendo quem ela é de fato ou está apenas respondendo aos estímulos que a rede social conduziu?

Defender a tolerância exige não tolerar o intolerante”, no entanto, este “intolerante” é assim de fato ou apenas reage ao que é construído através de algoritmos do Facebook?

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